CHOVE? NENHUMA CHUVA CAI...
Ai, que saudades daqueles dias brancos e frios! Eu era tão pequena e frágil; a chuva lá fora resguardava-me junto ao cálido leito, onde, enroscando-me por entre lençóis e cobertas, à meia-luz, devorava torradas e gibis, ao abrigo das intempéries de um mundo hostil.
De quando em quando, voltava o olhar para a janela, persiana aberta e vidros cerrados, de onde degustava um muro branco, quase brilhante, claro como a chuva e a neve. Sempre chovia e nevava no muro de meus sonhos.
Era mais um daqueles dias preciosos, nos quais, fingindo-me enferma, mantinha-me à distância da escola, palco de sofrimentos indizíveis, dores que o meu coração de criança não podia suportar. Havia dois mundos opostos e inconciliáveis, cujas fronteiras definiam-se a partir da soleira da porta de minha casa. Era preciso não misturá-los: não macular o meu mágico universo familiar com os horrores que conhecera lá fora.
Agarro-me fortemente aos lençóis, sinto o calor e aconchego de minha cama de doente, único canto onde me sinto protegida, livre para sobrevoar os arco-íris de um universo fantástico, livre para tudo querer e para tudo poder ser, levitando entre estrelas e planetas, contemplando, do infinito azul, a pequenez da Terra e seus habitantes. Talvez até chova em algum recanto. Mas aqui, nenhuma chuva cai.
Vera de Azevedo Rodrigues
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