DADOS HISTÓRICOS SOBRE O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE DACHAU

Em 1933 fora anunciado por Heinrich Himmler o primeiro campo de concentração do partido nacional socialista na Baviera. Para lá foram mandados os primeiros adversários do regime. Era somente o começo de uma era de horror ...

 

Heinrich Himmler visitando o campo de concentração de Dachau.

 

Dachau foi o primeiro campo de concentração criado logo após a tomada de poder por Hitler e seus correligionários na Alemanha, fato este que concretizou-se em 30 de janeiro de 1933. Em 9 de março do mesmo ano, Heinrich Himmler (que veio a se tornar o "braço direito de Hitler) fora nomeado chefe de polícia da cidade de Munique, e poucos dias depois de sua posse anunciava nos jornais o estabelecimento de um campo de concentração nos arredores de Dachau (uma cidade próxima à capital da Baviera). O projeto original era a construção de um local que pudesse "acomodar" cerca de 5.000 pessoas, para onde seriam enviados os inimigos do partido nacional socialista. No entanto, com o recrudescimento do Terceiro Reich, acabaram sendo confinados no local mais de 30.000 seres humanos, relegados ao mais alto estado de degradação que se possa imaginar.

Os primeiros enviados foram alemães, adversários políticos do ditador; com o tempo passaram a ser para lá transferidos também os  homossexuais, estrangeiros (provenientes de cerca de 27 países), clérigos, ciganos e aqueles taxados como pertencentes a uma "raça inferior" - os judeus.De todos,  estes últimos foram os que mais padeceram, vítimas da estrepitante propaganda hitlerista - para eles foram destinados os piores castigos e humilhações. Em novembro de 1938, após a "Noite dos cristais" (em espanhol consta como "la noche de los cristales"), ingressaram em Dachau mais de 10.000 judeus provenientes do Estado da Baviera.

DACHAU SE TORNA UM MODELO PARA OS DEMAIS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA ALEMANHA

 

Prisioneiros do campo de concentração de Dachau.

 

Em junho de 1933, Theodor Eicke foi nomeado o comandante do campo de concentração de Dachau e foi o idealizador da típica "arquitetura" do campo (área dos oficiais contrapostas às dos prisioneiros), que acabou por servir de modelo para todos os demais campos de concentração que vieram a ser construídos, inclusive porque em 1934 este oficial veio a ser o inspetor de todos os demais centros de confinamento que vieram a ser criados.

A disposição geográfica consistia em uma separação entre o espaço reservado aos oficiais nazistas (os quartéis e demais instalações) e a extensa área destinada aos prisioneiros (além dos alojamentos para dormir, havia um vasto terreno, isolado por cercas de alta tensão e guaritas,  que os separava dos poderosos). Duas vezes ao dia eles precisavam colocar-se em fila para responder à convocação dos oficiais, sendo que por vezes, por pura arbitrariedade dos oficiais SS, sem nenhuma explicação plausível, a convocação se alongava "indefinidamente", o que os obrigava a permanecer horas de pé, famintos e exaustos.

O fato de serem expostos num amplo terreno, sob as ordens dos guardas, que de seus patamares ditavam as ordens, os fazia sentir ínfimas e indefesas criaturas. Era justamente este o objetivo da polícia de Hitler.

Regulamentos inflexíveis foram implantados, mas a despeito destas "regras",  as vítimas estavam sujeitas a todos os tipos de arbitrariedades por parte dos oficiais nazistas. Bastava esquecerem um objeto fora de lugar, ou aparecer uma pequena mancha no chão, e lá vinham os castigos, entre os quais o "açoitamento", que chegava ao requinte de crueldade do preso ter que contar em voz alta o número de golpes que sofria (por vezes até desmaiar); o "plantão", no qual o preso era obrigado a permanecer de pé, na praça central do campo, imóvel por vários dias, sujeito a todas as condições climáticas; a "privação de comida", que poderia ser nas "modalidades" coletiva ou individual, além de outros métodos com requintes de crueldade.

 

TRINTA E DOIS MIL (32.000) PRISIONEIROS VIERAM A TER SUAS VIDAS CEIFADAS NO CAMPO DE DACHAU

 

Preso submetido ao castigo do plantão - ficar de pé por horas ou dias na praça central.

 

Embora tenham sido construídas câmaras de gás no campo, por uma razão inexplicável elas nunca foram utilizadas; acabaram tornando-se recintos para a "desinfecção". No entanto, as vítimas morriam de inanição, excesso de trabalho, em virtude dos castigos ou mesmo experimentos médicos; quando aproximava-se o  final da guerra, alguns foram  fuzilados. 

Durante a guerra, Heinrich Himmler idealizara criar uma própria "ciência nacional socialista", em parte para proceder a estudos das condições físicas às quais estavam sujeitos os soldados alemães, por vezes vítimas de acidentes de guerra. Como exemplo disto, temos as hediondas experiências de "resfriamento", nas quais os presos eram imersos em água gelada (por vezes até a morte) a fim de detectar qual o tempo de sobrevida e as reações do organismo em tais condições - simulando o que ocorria com os pilotos de aviões alemães que caiam no mar. No entanto, a maior parte deste tipo de experimento foi realizada em Auschwitz, uma vez que, nas palavras de Himmler, em uma carta escrita em fevereiro de 1943: "Auschwitz é em todo aspecto mais apropriado para um experimento em série deste tipo do que em Dachau, uma vez que lá faz mais frio e devido ao tamanho do terreno se chama menos a atenção (os sujeitos gritam quando sentem frio..)."

Foram efetuadas também experiências com o paludismo (malária), com o intento de se criar métodos de imunização contra a febre palúdica - para isto, cerca de 1.100 presos foram infectados com esta doença (estudos sobre a tuberculose também foram realizados).

Enfim, muitas foram as razões das mortes em Dachau, totalizando durante o período de existência do campo aproximadamente 32.000 vidas ceifadas.

ESCRAVOS E EXTERMÍNIO: UMA CONTRADIÇÃO

 

Prisioneiros submetidos ao trabalho escravo na indústria de armamentos.

 

A verdade é que os prisioneiros dos campos se transformaram em verdadeiros escravos, e alguns foram realocados para campos externos, sob a custódia dos guardas da SS, a fim de trabalharem na construção de estradas e outros trabalhos. Com o recrudescimento da guerra, a mão de obra passou a ser  utilizada intensivamente na  indústria alemã de armamentos.  Somente o campo de Dachau possuía 36 grandes centros anexos, nos quais trabalhavam aproximadamente 37.000 presos, na fabricação de munições.

Em 1942 pensou-se em implantar pequenas melhorias nos campos de concentração, a fim de reduzir o índice de mortalidade de "tão preciosa mão de obra" - o que ficou somente na intenção. Paradoxalmente, nos campos de extermínio iniciou-se a execução sistemática daqueles que os nacional socialistas consideravam "seres inferiores"... Como conciliar a meta de "exterminar o maior número de pessoas" com o objetivo de "fornecer a maior quantidade de trabalhadores escravos às indústrias de armamentos"?...

A despeito de uma leve mudança de atitude da SS frente às condições do campo, tendo em vista o valor econômico da mão de obra escrava, persistiam as condições desumanas nos campos. Os prisioneiros precisavam trabalhar, famintos e debilitados, até 11 horas por dia, além de terem que suportar horas em pé nas filas para responderem às " listas de chamada" das manhãs e das tardes - isto sem contar as extenuantes caminhadas de ida e vinda para os locais de trabalho. O tempo que restava para o sono era mínimo...

DEPOIS DE ANOS DE SOFRIMENTO, EM 29 DE ABRIL DE 1945, FINALMENTE A LIBERDADE!!!

 

A reação dos presos diante da chegada das tropas americanas. Esta foto consta do nosso PHOTO ALBUM.

 

"ESTAMOS LIVRES"!!! Este foi o grito que ecoou por todos os cantos quando da chegada das tropas americanas em Dachau. Os então ex-prisioneiros que se encontravam em condições um pouco melhores de saúde, organizaram festividades  na praça do campo. Era o fim do "inferno do Terceiro Reich", e o recomeço de uma nova vida ... 

Anos depois, em 1965, o ex-campo de concentração foi finalmente transformado em um memorial, a fim de lembrar aos alemães e ao mundo o que pode acontecer se não nos acautelarmos contra o autoritarismo que impera no mundo... 

 

 

Vera Rodrigues-Rath, junho de 2003


Matéria redigida por Vera Rodrigues-Rath, jornalista, registro no Ministério do Trabalho n. 13.912. O artigo pode ser copiado desde que citada a fonte.

Material de pesquisa: dados extraídos do folheto "El campo de concentración de Dachau" (versão em castelhano), editado pelo Comité Internacional de Dachau (1972) - texto de Barbara Distel.

Um site muito interessante, em inglês (com versões espanhola e alemã), de onde eu tirei a maioria das fotos que estão nesta página: http://members.aol.com/zbdachau/index_e.htm 

Outro, em inglês, onde se pode fazer um "tour" pelo memorial do campo de concentração de Dachau: http://www.scrapbookpages.com/DachauScrapbook/